terça-feira, 17 de novembro de 2009

O SABBATH

Já não eram crianças, pois que havia garrafas de vinho vazias pela grama e sobre o largo tecido sobre o qual se sentavam. Riam e cantavam canções esquecidas por todos ou desconhecidas pela maioria dos outros de suas idades, e isso não chegava a ser um motivo de orgulho, mas era o que os unia indissoluvelmente uns aos outros. Julgavam possuir um segredo importante, o qual, entretanto, não queriam manter secreto. Se ao menos pudessem mostrar aos outros o valor daquele segredo... Se ao menos os outros pudessem entender o valor que aquilo tem...

Virgínia soltou os cabelos e levantou-se num ímpeto, as pulseiras feitas à mão batendo umas contra as outras como chocalhos. Pegou dois compridos tecidos coloridos.

- Vejam o que aprendi a fazer.

E na troca de olhares com dois de seus amigos, começaram a executar uma alegre e conhecida música, mesmo que fosse apenas para aquele grupo. A música era multicor, falando de malabares e anjos, e Pedro tirava de seu violão um som lustrosos e brilhante, com Clara cantando enquanto marcava o compasso em uma meia-lua. Notas musicais dentre bolas de sabão que de todas as serenatas vieram.

Com suas pulseiras de sementes e cordas, Virgínia começou lentamente a dançar, movimentando os tecidos em círculos, espirais, ondulações, curvas brandas e suaves como as de seu corpo juvenil, também pleno de movimentos e ondulações. Dançava, vívida e completa, e Ângelo a observava, sereno. Absorvia-a, ameno. Sutilizava-se, gentil. Todos se envolviam na magia daquela dança contraditória entre o sublime e o sensual, o divino e o profano. Aura, Albino, Hélio e Celeste batiam palmas ritmadas, tinham os olhos brilhantes de satisfação, tinham as almas plenas. As canções sucediam-se e os olhos de Virgínia sempre pediam por mais, incansável, insaciável, delicada e pura flor de primavera a desabrochar dez mil vezes sobre a grama, sob o sol poente, sob o brilho daqueles olhares. Ângelo a seguia com o olhar macio e morno, tinha muitas lágrimas a derramar, alegria que faz chorar, tristeza que consola.

Oito músicas e a companhia de outras garotas deixava a dança mais alegre, os garotos se revezavam entre o vocal e os instrumentos dos quais dispunham, um deles até mesmo se arriscou a bailar. E era tudo como um encontro de crianças ao redor do fogo, o fogo gerando concentração e curiosidade, o fogo queimando o que havia de mal, dando vida nova ao que havia de melhor.

E era somente luz, era somente lua quando Virgínia deixou-se cair, exausta, sobre a grama, os cabelos espalhados na grama, o sorriso espalhado no rosto, os olhos espalhados no cobertor de estrelas que era o céu depois de o sol se pôr. Os outros foram lentamente deixando-se cair ao seu redor.

Assim caída, Virgínia teve seus olhos cobertos pelas mãos pequenas e suadas de Bianca, que sorria e deixava seus olhos claros brilhando no afogueado de suas faces.

- Deve ser assim, nesse sentimento de epifania, depois de momentos como esse, que os grandes artistas criaram suas melhores obras, e que os grandes cientistas fizeram suas maiores descobertas. Diga, o que te vem à mente, irmã?

Virgínia apertou os olhos e segurou as mãos da irmã. Sentou-se, ainda com os olhos firmemente cobertos, e sentiu que todo cansaço de seu corpo tinha o celestial poder de uni-la ao Universo.

- Há um céu acima de mim que não posso tocar. Estendo a mão, e não o alcanço. Mas sei que não o devo buscar, pois sempre estive imersa nesse azul que busco, sempre estamos rodeados do que buscamos no mais além.

Abriu os braços e inspirou uma grande quantidade de ar, Virgínia queria explodir.

- Sinto que tenho um corpo e uma alma, e que mesmo que esta tenha traços da ingenuidade original, ela é nociva, meu corpo é nocivo, exatamente por estarmos todos sujos pelo que sabemos. Ai, desse saber que usamos mal... Ai, desse saber! Pecar é conhecer o erro e mesmo assim errar. Não queria deixar meu corpo e alma pecarem, mas há algo de inumano em minha humanidade, e ela clama, ardente, pelas contradições de mim.

Ângelo se aproximou um pouco, concentrado nas palavras que escorrem macias da boca de Virgínia.

- Há um coração em mim, que clama por caminhar lado a lado com outro coração. E há tanto sangue bombeando, tanta vida! Queria encostar minha cabeça em um ombro que me desse abrigo e descanso, queria oferecer meu colo para alguma alma adormecer do cansaço da luta contra si mesmo.

Três vermelhas gotas de vinho pingaram do bico de uma garrafa caída.

- Há ainda uma força estranha, que regula a tudo em silêncio, e que faz a perfeição. Se deixássemos as guerras e as inseguranças de lado, veríamos que tudo está exatamente como deve estar, o mundo caminha como pode e vai sempre sob a égide dessa força oculta e perene, substanciosamente eterna e flébil. Uma leveza de existir que apenas a essência de mim conhece.

Todos agora olhavam para o alto, contando estrelas, aconchegados uns aos outros.

- Se ao menos cada um pudesse ser feliz, se agíssemos realmente de acordo com o coração até onde isso não ferisse ninguém, estaríamos em paz, deitaríamos todas as noites sob um céu de estrelas e contaríamos histórias do que é, do que foi e do que ainda será. Falaríamos das páginas que já se perderam e de todas que ainda serão escritas. Tudo isso se apenas soubéssemos qual a distância entre o eu e o outro, o limite que permite que ambos existamos em paz.

Ângelo também já se aconchegava ao lado de Virgínia, Bianca sorria e soltava lentamente as mãos de por sobre os olhos da irmã, pois tinha que saber aquele espaço entre as duas para poderem existir em paz. Virgínia foi se deixando escorrer novamente para a grama, aconchegando no regaço morno de quem lhe fazia bem sem exigir nada, a irmã com um dedo sempre em gancho a segurar o dedo mínimo da irmã, necessidade de demonstrar o amor fraterno e humilde que jamais feriria o espaço de ninguém. Todos a contar estrelas na entrada daquela noite de sábado que prenunciava o início do resto de suas vidas...






[Cheers!]

domingo, 15 de novembro de 2009

DOR DO TAMANHO DO MUNDO

Carrego na alma uma dor imensa,
Carrego uma dor do tamanho do mundo,
A dor dos fracos, dos mais oprimidos,
A dor dos banidos, sofridos, imundos.

Carrego a dor de oprimidos e tolos,
Dos ignorantes e das prostitutas,
Carrego a dor que os moleques de rua
carregam nos bolsos das calças curtas.

Carrego essa dor, e não posso chorar,
A lágrima brota e empedra no olhar.
Carrego essa dor, e minha voz não se expande,
Pois teme quebrar os vidrilhos da estante.

Assereno o sufoco com a dose de cólera,
Um soluço convulso e minha febre ao luar,
Meus punhos cerrados na casca da árvore,
O sangue injetado em meu olhar.

Abocanho os joelhos, arranho as pernas,
A dor não me deixa, a ferida não fecha.
E um corpo em delírio se arrasta no chão
Com a mão do delito sobre o coração.

E se geme, e se sofre e não pode falar,
Seu corpo em frêmito ainda pode contar
Das máculas feridas em seu coração,
Da desgraça fumaça que vai ao pulmão.

E se reza, ajoelha, e se quer redimir,
Vem o dedo que aponta a sujeira a surgir,
E lhe chamam impuro: "Saia daqui!
Tua doença e ideia nos vai denegrir!"

Carrego uma dor do tamanho do mundo,
Um espírito imundo define meu ser,
A sujeira de fora, com água se limpa,
Mas tua arrogância, quem vai vencer?

Sou um espírito imundo que clama, ardente,
Derramo meu sangue sagrado e suor,
Contrito entrego meu corpo ao suplício,
O Teu sofrimento eu já sei de cor.

E a voz dos que brilham seus rostos-sorrisos?
E o sorriso de escárino de Teu seguidor?
Acho mesmo que falsos são aqueles dentes
Que comem minha chance de ser bem melhor.

Fala pra aqueles, já que Te seguem,
Que sou gente mansa por dentro - e irmão!
Preciso apenas de aprendizado,
Um pouco de amor e de proteção.

Fala pra eles, que dizem "Senhor!"
Que eu também quero a minha morada,
E que as minhas mãos, hoje tão maculadas,
Também são capazees de renegação.

Fala pra eles, tão alvos, serenos,
Que se ainda troco conceitos exatos,
Que se me disfarço, sou bicho do mato,
E se o sentimento que sinto é pequeno,

É meu coração, ainda destreinado,
E é meu pecado ao fazer, mesmo errado,
o que meu sentido ainda requer.





Cheers!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

SANGUE NEGRO QUE ESCORRE EM PAPEL IMPRESSO


Passe teus dedos pelas minhas páginas. Leia-me.
Releia-me e conte minha história a quem te aprouver.
Absorva o que de belo e inexprimível há em mim,
E faça de cada palavra minha teu hino e teu louvor,
Pois, antes de ser página e papel,
Fui carne, sangue e fervor,
Antes de ser letra, vírgula, exclamação,
Fui tua pele na minha pele,
Fui teu corpo no meu corpo,
Fui tua dúvida, fui teu delírio,
Fui teu descanso, tua religião.
Deixa-me à cabeceira para lembrar-te, antes de dormir,
Que tens necessidade do meu contato
E da sensação que te permito alcançar quando fecha os olhos
E despede-te da realidade que te assusta.
Acorda comigo ao teu lado,
E deixa-me suavizar teus dias de cansaço de ti mesmo,
Pois eu sei que choras,
E é sobre minhas páginas que escorrem tuas lágrimas,
É em minhas mãos que esconde teu rosto
Quando a vida é insuportável e tu querias apenas poder respirar.
É em meu colo que descansas a mente
É em meu colo,
E apenas em meu colo,
Que consegues simplesmente viver.








.


Cheers!

quarta-feira, 29 de julho de 2009

CONVERSAS DE TRAVESSEIRO



Capítulo I
- Fecha os olhos e dorme logo!
- Não... Vou sentir saudades de você...

Capítulo II
- E aí eu falei pra ela que eu não ia fazer aquilo, não fazia sentido, entende?
- ...
- Amor?

Capítulo III

- Estou com dor de cabeça...

Capítulo IV

- Acho que eu ouvi um barulho...

- Hm?
- Eu disse que ouvi um barulho.
- São os móveis rangendo... Dorme logo...

- Não! Tem alguma coisa aqui. Acho que é uma barata. Mata ela pra mim?

Capítulo V

- Hm...
- Putz!
- Bem? Onde é que você tava?
- Ahn... Tava no bar com uns amigos...
- Ah... Eu juro que eu tava te esperando... mas deu sono, rss...
- Rss... Pode voltar a dormir...

Capítulo VI
- Amor?
- Hm?

- Já te falei que eu te amo?
- Hm? Já... Você vive falando isso...

- Ah. É que eu não quero pensar que eu deixei alguma coisa por fazer só por falta de tempo, sabe?

- Hm... Eu também te amo. Posso dormir agora?


Capítulo VII

- Amor...
- O que você quer?
- Ah... Só quero dizer que te amo...

- Ahn... Também te amo...


Capítulo VIII

- Alô?
- Ahn.... Alô... Quem é?
- Sou eu, amor!

- Putz... São duas horas da manhã...
- Ah! Desculpa, você tava dormindo?

Capítulo IX

- ...
- ...
- ...
- ...
- Não vai me beijar?
- Tava esperando você tocar no assunto, hehe...

Capítulo X
- Alô?
- Oi...

- É você? Nossa... Há quanto tempo...
- É... Acho que a gente tinha que se ver...
- Será que dessa vez dá certo?
- Sei lá. Mas vamos curtir um pouco, né?

Capítulo XI

- Eu vou querer ir na montanha russa, sempre gostei da montanha russa.

- ...
- Que foi?
- Nada não... É que você parece sempre uma menininha...

Capítulo XII
- Vamos passar as férias na praia...
- Hehe...
- O que quer dizer "hehe"?
- Hm... Quer dizer "hehe, prepare-se". Posso apagar a luz?



Ps.: Conversas de Travesseiro, apesar da estrutura em capítulos, não é contínuo. Cada capítulo é um flash isolado retratando diálogos de casais.

Nem lembro quando ou por quê inventei, mas achei bonitinho... *.*




Cheers to the loneliness... u.u

quarta-feira, 27 de maio de 2009

RETICÊNCIAS...

Estou em um momento de reticências. Faculdade, formatura, auto-escola, cursos, trabalho, provas, amigos, projetos... Não tenho tido muito tempo para mim.

Além disso, tenho ocupado os momentos que me restam escrevendo "Do Silêncio".

Mais detalhes a posteriori.

ps.: quero fazer um blog novo... u.u

time... time... time...

domingo, 5 de abril de 2009

ESSENCIAL

Sua sensibilidade não era nada além de solidão.

Sem a solidão, deixava de ser ela mesma
E passava a ser qualquer coisa ao avesso de si.

Amá-la era a forma mais fácil de afastá-la,
Amá-la era destrui-la,
Amá-la era querer vê-la partir
E parti-la em milhões de pedaços
Sem solução.

quarta-feira, 18 de março de 2009

FELICIDADE


Felicidade é uma coisa rara,
É um pedaço de papel crepom,
Uma caneta que às vezes falha,
Uma lembrança de um tempo bom.

Felicidade, duvidei se existe,
Tantas vezes triste, a me questionar,
Fiquei buscando em tudo que consiste
Em doce mistério para desvendar

Uma só palavra, uma doce - ao menos -
Que levasse o medo de me aventurar
Por tantos caminhos, nunca tão amenos,
Que não arrisque a vida a se acabar.

Mas tantas vezes quieta, tantas vezes louca,
Com meu escudo a me defender,
Afastei-me da felicidade,
Que tantas vezes tentou me entreter.

Hoje escrevo com caneta falha,
Busco o suspiro pra sobreviver
N'alguma amena alegria d'alma
Que meu peito frágil não vá derreter.

Sei que ela existe, em algum lugar,
Sei que é colorida, e que é furta-cor,
Sei que me arrependo de me esquivar,
Sei que fujo dela, com medo da dor.

Mas eu me pergunto - e guardo em segredo:
Onde fica a dor da felicidade?
Hoje creio que ela está no medo
De me ver diante da verdade

E a encarar, com todas minhas fraquezas
E de perceber, ao chegar ao fim,
Que felicidade e todas as belezas,
Dependem sempre, e muito mais, de mim.





Cheers!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

PROFUNDAMENTE

Toda vez que te vejo,
Eu me apaixono pelas minhas mentiras.
Toda vez que encontro com você,
É como a despedida de alguém
Que nunca esteve aqui.
Toda vez que me distraio com o seu sorriso
É como se me escorresse
gota
a
gota
Todo meu sangue.
Me sinto vazia,
Mas, ainda sim, me sinto feliz.
Toda vez que te abandono,
A saliva se faz corrosiva em minha boca,
Dissolve minha voz em soluço,
Dissolve o meu grito em medo.
Toda vez que roço de leve sua existência,
Inexisto em mim,
E passo a existir completamente em você.





...And, today, cheers to our pretty, deep and inexistent love...

VOCÊ ME TIRA A PAZ


Você me deixa atrás
E só me tira a paz
Você me faz ciúmes
Mas me satisfaz,
Você me faz brinquedo
E nos faz segredo
Você se faz meu medo
E então se desfaz
E se refaz num mito
E me destrói num grito
É um coração aflito
E só me tira a paz.


Cheers!

COMPLETUDE


Duas folhas ao chão disseram
Que eu sou metade,
E sou metade pois metade
Do que sou, em mim
Não faria tanto estrago
Quanto faço, enfim,
Pois me confundo em passos débeis,
Em covas rasas,
Em verdades e mentiras
E dilemas e histórias
(Mal-enterradas) de fim.

Dois pássaros ao céu disseram
Que sou inteira,
E que sou perfeita no que sei ser
Mesmo que não seja completa, enfim,
Mesmo que seja apenas pedaço de perfeição roubada
De um querubim.
Serei inteira mesmo assim,
Pedaço inteiro do que sobrou de mim.
A incompletude do que não tem fim,
O completamente nem bom nem ruim.


Cheers!