Virgínia soltou os cabelos e levantou-se num ímpeto, as pulseiras feitas à mão batendo umas contra as outras como chocalhos. Pegou dois compridos tecidos coloridos.
- Vejam o que aprendi a fazer.
E na troca de olhares com dois de seus amigos, começaram a executar uma alegre e conhecida música, mesmo que fosse apenas para aquele grupo. A música era multicor, falando de malabares e anjos, e Pedro tirava de seu violão um som lustrosos e brilhante, com Clara cantando enquanto marcava o compasso em uma meia-lua. Notas musicais dentre bolas de sabão que de todas as serenatas vieram.
Com suas pulseiras de sementes e cordas, Virgínia começou lentamente a dançar, movimentando os tecidos em círculos, espirais, ondulações, curvas brandas e suaves como as de seu corpo juvenil, também pleno de movimentos e ondulações. Dançava, vívida e completa, e Ângelo a observava, sereno. Absorvia-a, ameno. Sutilizava-se, gentil. Todos se envolviam na magia daquela dança contraditória entre o sublime e o sensual, o divino e o profano. Aura, Albino, Hélio e Celeste batiam palmas ritmadas, tinham os olhos brilhantes de satisfação, tinham as almas plenas. As canções sucediam-se e os olhos de Virgínia sempre pediam por mais, incansável, insaciável, delicada e pura flor de primavera a desabrochar dez mil vezes sobre a grama, sob o sol poente, sob o brilho daqueles olhares. Ângelo a seguia com o olhar macio e morno, tinha muitas lágrimas a derramar, alegria que faz chorar, tristeza que consola.
Oito músicas e a companhia de outras garotas deixava a dança mais alegre, os garotos se revezavam entre o vocal e os instrumentos dos quais dispunham, um deles até mesmo se arriscou a bailar. E era tudo como um encontro de crianças ao redor do fogo, o fogo gerando concentração e curiosidade, o fogo queimando o que havia de mal, dando vida nova ao que havia de melhor.
E era somente luz, era somente lua quando Virgínia deixou-se cair, exausta, sobre a grama, os cabelos espalhados na grama, o sorriso espalhado no rosto, os olhos espalhados no cobertor de estrelas que era o céu depois de o sol se pôr. Os outros foram lentamente deixando-se cair ao seu redor.
Assim caída, Virgínia teve seus olhos cobertos pelas mãos pequenas e suadas de Bianca, que sorria e deixava seus olhos claros brilhando no afogueado de suas faces.
- Deve ser assim, nesse sentimento de epifania, depois de momentos como esse, que os grandes artistas criaram suas melhores obras, e que os grandes cientistas fizeram suas maiores descobertas. Diga, o que te vem à mente, irmã?
Virgínia apertou os olhos e segurou as mãos da irmã. Sentou-se, ainda com os olhos firmemente cobertos, e sentiu que todo cansaço de seu corpo tinha o celestial poder de uni-la ao Universo.
- Há um céu acima de mim que não posso tocar. Estendo a mão, e não o alcanço. Mas sei que não o devo buscar, pois sempre estive imersa nesse azul que busco, sempre estamos rodeados do que buscamos no mais além.
Abriu os braços e inspirou uma grande quantidade de ar, Virgínia queria explodir.
- Sinto que tenho um corpo e uma alma, e que mesmo que esta tenha traços da ingenuidade original, ela é nociva, meu corpo é nocivo, exatamente por estarmos todos sujos pelo que sabemos. Ai, desse saber que usamos mal... Ai, desse saber! Pecar é conhecer o erro e mesmo assim errar. Não queria deixar meu corpo e alma pecarem, mas há algo de inumano em minha humanidade, e ela clama, ardente, pelas contradições de mim.
Ângelo se aproximou um pouco, concentrado nas palavras que escorrem macias da boca de Virgínia.
- Há um coração em mim, que clama por caminhar lado a lado com outro coração. E há tanto sangue bombeando, tanta vida! Queria encostar minha cabeça em um ombro que me desse abrigo e descanso, queria oferecer meu colo para alguma alma adormecer do cansaço da luta contra si mesmo.
Três vermelhas gotas de vinho pingaram do bico de uma garrafa caída.
- Há ainda uma força estranha, que regula a tudo em silêncio, e que faz a perfeição. Se deixássemos as guerras e as inseguranças de lado, veríamos que tudo está exatamente como deve estar, o mundo caminha como pode e vai sempre sob a égide dessa força oculta e perene, substanciosamente eterna e flébil. Uma leveza de existir que apenas a essência de mim conhece.
Todos agora olhavam para o alto, contando estrelas, aconchegados uns aos outros.
- Se ao menos cada um pudesse ser feliz, se agíssemos realmente de acordo com o coração até onde isso não ferisse ninguém, estaríamos em paz, deitaríamos todas as noites sob um céu de estrelas e contaríamos histórias do que é, do que foi e do que ainda será. Falaríamos das páginas que já se perderam e de todas que ainda serão escritas. Tudo isso se apenas soubéssemos qual a distância entre o eu e o outro, o limite que permite que ambos existamos em paz.
Ângelo também já se aconchegava ao lado de Virgínia, Bianca sorria e soltava lentamente as mãos de por sobre os olhos da irmã, pois tinha que saber aquele espaço entre as duas para poderem existir
[Cheers!]



