terça-feira, 22 de junho de 2010

Sobre o silêncio

Uma das coisas que eu tenho percebido quando cismo sobre o mundo é que nunca consigo me expressar sobre o que é realmente relevante. Posso dizer mil banalidades sobre coisas rasas que me cercam, mas quão dura é a tarefa de fazer com que uma palavra sobre algo intensamente sentido saia da minha boca. Me parece que tudo o que se sente com profundidade é imponderável, inexplicável, indizível. Algo como a essência do universo que chamam de Deus.

Usar o termo "Deus" é banalizar a perfeição de sentir esse algo grandioso que é o próprio universo em ação. É uma palavra restritiva, destruidora. "Deus" está cheio de idiossincracias medíocres. "Deus" não é o que se esperaria que se pudesse definir com "Deus". "Deus" falhou. Para se perceber realmente o que há de mais "sagrado" na vida, creio que devamos manter silêncio, respeitar e admirar. Sem palavras. Em silêncio.

Você pode se comover, você pode analisar, você pode criar todos os tipos de mitos e fórmulas para que o Universo seja desvendado, mas nenhuma, nenhuma delas poderá abarcar tudo o que há. Trazendo à tona o sentimento já comentado por Clarice Lispector, podemos dizer que o Universo, seu funcionamento, sua essência, o que for! simplesmente É. Não se pode dar mais nenhuma definição - todas falharão. Todas estarão apenas na borda, roçarão a superfície julgando-se estar no fundo.

E não digo com isso que as pessoas devam deixar de acreditar no que quer que acreditem. As religiões, as filosofias, as ciências, todas elas têm apenas um objetivo - fazer com que dentro do inexplicável da vida, possamos seguir adiante. Mesmo sem compreender de fato.

É uma tábua de salvação.

Então, creiam! Sejam católicos, evangélicos, espíritas, budistas, xintoístas, agnósticos, ateus. O que quer que acreditemos, sempre estaremos aquém da verdade. Então, sejamos o que quisermos, contanto que isso nos faça conseguir respirar e caminhar em frente. Contanto que isso não nos fira e não nos permita ferir ninguém. Contanto que vivamos como os animais das outras espécies, de forma natural, de forma que respeitemos nossos semelhantes e nosso meio. Qualquer coisa que nos leve a isso é válida, é positiva, é inteligente.

O mesmo ocorre com nossos sentimentos.

Creio que haja um universo que se desenvolve todo fora de nós e um universo interno, repleto de tudo o que nos faz viver. Tentar explicá-lo é o mesmo que tentar explicar esse difícil universo interior: é uma batalha infrutífera. E as pessoas perguntam: "o que você sente por mim?" Isso é algo que não se pode expressar: toda palavra estará aquém da verdade. Mesmo que se sinta o mais profundo infinito por alguém, chamar isso de amor é banalizar o que se sente com uma palavra gasta e inútil.

O que sinto por você?
...

[um abraço, o mais apertado que se podia, e entre eles se fez o mais absoluto silêncio...]



.

8 comentários:

Juan Moravagine Carneiro disse...

Gostei muito do seu espaço...

Ele tem muita identidade!

Aliás (Tangerine), me fez lembrar uma música do Led Zeppelin...

abraço

Anônimo disse...

parabéns é um grito sobre o silêmcio apreciei bastante ;)

Nina disse...

Quando você postou isso no twitter, eu não estava em um momento tranquilo. Comecei a ler e pensei: opa, isso merece que eu leia mais tarde, com atenção!E valeu a pena esperar...
É um desses textos que realmente nos acrescenta algo.
Até criei predileção por uma frase.

beijos

.tangerine disse...

Nossa, obrigada! Até gostaria de saber que frase que te agradou assim! =)

beijos

.tangerine disse...

Uma música do Led Zeppelin? Fico curiosa! =)

Alexandre Gaioto disse...

Parabéns, Thays. Sua escrita é como broinha de fubá mimoso que se derrete no céu da boca.

.tangerine disse...

Adorei sua comparação, Alexandre! Obrigada e volte sempre!

Rafael Zanatta disse...

HAHAHAHHAHAHA! Desculpa, começar com uma risada (o que pode provocar diversar interpretações), mas o comentário do Gaioto é digno de um riso digitado! "Broinha de fubá mimoso"? De onde ele tira essas expressões?

Agora falando sério.

Seu texto é bem existencial, sem ser solipsista - já que reconhece a vida fora do homem.

Gostei bacana. Espero que você continue com divagações sobre o silêncio - o barulho do mundo às vezes nos tira a necessária reflexão que nos torna SER humano (e não um mero TER humano, repetindo aqui algumas das palavras de Eric Fromm).